O seguinte estudo é baseado nas informações contidas nas obras da Codificação Espírita e tem o objetivo de facilitar o entendimento sobre A VISÃO DOS ESPÍRITOS.
Muitas pessoas imaginam que os Espíritos*
possuem olhos, tal qual os humanos têm, pois relacionam a aparência do Espírito,
que possui a forma humana, à sua função fisiológica. Esse entendimento é uma
das consequências da nossa tendência em materializar as coisas espirituais,
sempre fazendo analogias com o que conhecemos. Um estudo atencioso das obras
fundamentais da Doutrina Espírita, cuja autoria é de Espíritos superiores em
conjunto com outro igual, em estado de encarnado, o nobre e querido mestre,
Allan Kardec, nos permite compreender esse assunto de forma clara e inequívoca.
Encontramos vários textos nas obras
escritas por Kardec em que trata das percepções dos Espíritos. No estudo
presente vamos nos limitar à percepção da VISÃO dos Espíritos.
Para iniciarmos, escolhemos a
seguinte questão de O Livro dos Espíritos - (OLE) - para trazer esse esclarecimento:
245. Os
Espíritos têm circunscrita a visão, como os seres corpóreos?
R:
“Não, ela reside neles.”
* O termo Espíritos se
refere ao estado dos seres humanos desencarnados, um ser duplo, composto de
alma e seu corpo espiritual.
A resposta acima nos faz questionar
ONDE, então, reside a visão dos Espíritos, já que a visão não é
circunscrita, como nos seres corpóreos, pois estes possuem um órgão específico
para tal, os olhos.
Os Espíritos superiores ao
responderem a Kardec a respeito da definição sobre o que são os Espíritos,
informam que a nossa linguagem é deficiente no sentido de poderem usar algum
termo de comparação para que pudessem nos explicar. Contudo, informam que os
Espíritos são os seres inteligentes da criação, que é a matéria
quintessenciada, tão etérea que escapa inteiramente ao alcance dos nossos
sentidos e entendimento e que, por isso, inexiste termo que servisse de
analogia que pudessem usar para fazer uma comparação.
De posse desse entendimento Kardec
então pergunta aos Espíritos, ainda em OLE:
93. O
Espírito, propriamente dito, nenhuma cobertura tem, ou, como pretendem alguns, está sempre envolto
numa substância qualquer?
R: “Envolve-o
uma substância, vaporosa para ti, mas ainda bastante grosseira para nós; extremamente
vaporosa, entretanto, para poder elevar-se na atmosfera e transportar-se aonde
queira.”
A esse envoltório vaporoso do
Espírito, Kardec denominou de Perispírito.
Ao longo das vinte e três obras
escritas por Allan Kardec, encontramos algumas outras definições e conceitos
sobre o perispírito, mas é na definição abaixo, que consta no livro A
Gênese - capítulo XIV, item II, que vamos encontrar a resposta que mais satisfaz ao nosso estudo
em questão:
“O perispírito é o órgão sensitivo do Espírito, por
meio do qual este percebe coisas espirituais que escapam aos sentidos
corpóreos. Pelos órgãos do corpo, a visão, a audição e as diversas sensações
são localizadas e limitadas à percepção das coisas materiais; pelo sentido
espiritual, ou psíquico, elas se generalizam: o Espírito vê, ouve e
sente, por todo o seu ser, tudo o que se encontra na esfera de
irradiação do seu fluido perispirítico.
É interessante observar a
afirmação de Kardec de que o perispírito é o órgão sensitivo do Espírito, ou
seja, o órgão que permite ao Espírito obter, de forma generalizada, as
sensações e percepções do mundo exterior e ao alcance da sua irradiação
fluídica.
Tendo esclarecido que a visão dos
Espíritos se faz por todo o seu perispírito, outros questionamentos se fazem
consequentes, tais como:
1. É necessário que haja luz para que os Espíritos vejam?
2. Por que alguns Espíritos dizem estar nas trevas?
3. Existe obstáculo material que impeça a visão dos Espíritos?
4. Todos os Espíritos possuem o mesmo alcance de visão?
Para todas
essas questões temos respostas dos Espíritos superiores que participaram da
Codificação Espírita, respostas estas admitidas pelo Controle Universal do
Ensino dos Espíritos e sancionadas pelo pensamento criterioso, lógico e
racional de Allan Kardec.
Assim, passemos para o estudo sobre
os questionamentos acima. Segue o primeiro:
1. É necessário que haja luz para que
os Espíritos vejam?
Em OLE encontramos uma
pergunta de Kardec bem específica sobre esse assunto:
246. Precisam (os Espíritos)
da luz para ver?
“Veem por si mesmos, sem precisarem de luz exterior.
Ou ainda em OLE, no capítulo VI - Ensaio
teórico da sensação dos Espíritos:
“Pelo que concerne à vista, essa, para o Espírito,
independe da luz qual a temos. A faculdade de ver é um atributo essencial da
alma, para quem a obscuridade não existe.”
As respostas são precisas em
esclarecer que a visão do Espírito é um atributo da alma, ou seja, é uma
propriedade essencial da alma, e deduzimos que não existe lugar, por mais obscuro
que seja, em que os Espíritos não possam ver.
As duas explicações acima nos
deixam agora com outra indagação, pois sabemos que não poucos Espíritos se
comunicam em reuniões mediúnicas relatando seu sofrimento no mundo espiritual, descrevendo
que estão no escuro, que tudo é obscuridade, trevas. Como entender então esses
relatos?
Essa questão nos remete à nossa segunda
pergunta proposta para este estudo:
2.
Por que alguns Espíritos dizem estar
nas trevas?
Para esta
suposição existiriam duas possibilidades:
a)
Existem
lugares obscuros (trevas) no mundo espiritual;
b) Alguns Espíritos podem perder a
visão.
Vejamos a primeira possibilidade:
É
perfeitamente possível imaginarmos um local escuro no mundo espiritual, visto
que essa situação é real no mundo material. Ao olharmos o céu à noite
percebemos muito mais espaços sem luz do que iluminado pelas estrelas. Não
seriam esses espaços regiões demasiado escuras onde o Espírito nada pudesse
enxergar? Ou ainda, poderia haver alguns lugares específicos em que não
houvesse luz?
Em A
Gênese, capítulo XIV, Kardec
discorre exatamente sobre a luz espiritual:
24. Pois que a visão espiritual não
se opera por meio dos olhos do corpo, segue-se que a percepção das coisas não
se verifica mediante a luz ordinária: de fato, a luz material é feita para o
mundo material; para o mundo espiritual, uma luz especial existe, cuja
natureza desconhecemos, que é, sem dúvida, uma das propriedades do fluido
etéreo, adequada às percepções visuais da alma. Há, portanto, luz
material e luz espiritual. A primeira emana de focos circunscritos aos
corpos luminosos; a segunda tem o seu foco em toda parte.
Ou seja,
nossos sentidos materiais são insuficientes para perceber uma luz especial presente
no fluido etéreo, ou universal, que ilumina o mundo espiritual e que é
apropriada à percepção da visão dos Espíritos e, por isso, não existem lugares
escuros para eles.
Para a segunda possibilidade
temos o complemento da resposta à questão 246 acima que traz o seguinte:
246 .... Para os Espíritos não há
trevas, salvo os que podem achar-se por expiação.”
Notamos que
foi introduzido uma informação nova, cuja ideia está também na seguinte
passagem da obra O Que é o Espiritismo (OQE),
capítulo II:
“17. Os Espíritos possuem todas as percepções que tinham na
Terra, porém em grau mais alto, porque as suas faculdades não estão amortecidas
pela matéria; eles têm sensações desconhecidas por nós, veem e ouvem coisas que
os nossos sentidos limitados nos não permitem ver nem ouvir. Para eles não
há obscuridade, excetuando-se aqueles que, por punição, se acham
temporariamente nas trevas.”
O complemento da resposta da
questão 246 de OLE, bem como o item 17 de OQE, destacados acima, podem deixar
alguns leitores bastante intrigados necessitando de mais reflexões.
A primeira reflexão seria a de
poder o Espírito expiar suas faltas durante a erraticidade?
Muitos entendem que a punição ou expiação
apenas se dá no mundo corporal, quando estamos encarnados. Para esse
esclarecimento escolhemos a seguinte questão de OLE para trazer a explicação necessária:
998. A expiação se cumpre no
estado corporal ou no estado espiritual?
“A expiação se cumpre, durante a existência corporal,
mediante as provas a que o Espírito se acha submetido e, na vida espiritual,
pelos sofrimentos morais inerentes ao estado de inferioridade do Espírito.”
Assim, concluímos que alguns
Espíritos podem ter a visão espiritual obliterada (anulação da percepção
visual), não por existirem lugares de trevas no mundo espiritual nem porque
podem perder a visão, mas sim por sofrerem uma punição ou expiação, em
obediência às leis divinas.
Como sabemos que todos os
Espíritos progridem, e que todos irão passar e vencer suas provas e expiações,
deduzimos que esse estado de obliteração visual é equivalente à duração da
expiação na vida espiritual.
Então, o que condiciona para que
os Espíritos se livrem dessa obliteração visual temporária?
Na obra O
Céu e o Inferno, capítulo VII – Código penal da vida futura, Kardec esclarece
sobre a condição para o término da expiação na vida espiritual: “Assim
que se manifestam nele as primeiras luzes do arrependimento, Deus lhe faz
entrever a esperança”. Ou seja,
o arrependimento é condição necessária para que o Espírito saia da situação de
expiação que anulava a sua percepção de ver e poder então recuperar a sua visão
espiritual, obliterada provisoriamente.
E continua no mesmo capítulo:
“Para o criminoso, a visão incessante de suas vítimas e das
circunstâncias do crime é um cruel suplício.
Certos
Espíritos estão mergulhados em espessas trevas; outros
estão num isolamento absoluto no meio do espaço, atormentados pela ignorância
de sua posição e de seu destino. Os mais culpados sofrem torturas tanto mais
pungentes quanto não lhes veem o fim. Muitos são privados da visão dos seres
que lhes são caros. Todos, geralmente, suportam com intensidade relativa os
males, as dores e as necessidades que fizeram suportar aos outros, até que o
arrependimento e o desejo de reparação venham trazer um alívio, fazendo
entrever a possibilidade de pôr, por si mesmo, um fim a essa situação.”
Colocamos abaixo um pequeno trecho
da História de um Danado, relatada na Revista Espírita de fevereiro/1860, em que São Luís responde a uma pergunta de Kardec:
“14. ─ Esse Espírito é sofredor e
infeliz. Podeis descrever o gênero de sofrimento que experimenta?
─ Ele está persuadido de que terá de ficar eternamente na
situação em que se encontra. Vê-se constantemente no momento em que praticou o
crime. Qualquer outra lembrança lhe foi apagada e qualquer comunicação com
outro Espírito foi interdita. Na Terra, só pode ficar naquela casa, e quando
no espaço, nas trevas e na solidão.”
Essa história é muito interessante
e comovente e o leitor tem a oportunidade de acompanhar a modificação moral
desse Espírito até o momento em que ele se arrepende dos crimes cometidos.
Sigamos para o nosso terceiro
questionamento:
3.
Existe obstáculo material que impeça aos
Espíritos de verem?
“25. Assim, envolta no seu perispírito, a alma tem consigo o seu
princípio luminoso. Penetrando a matéria por virtude da sua essência etérea, não
há, para a sua visão, corpos opacos.”
Esse trecho se encontra no livro A Gênese, capítulo XIV, quando
Kardec faz o estudo das formas que a alma tem de se emancipar.
No mesmo capítulo, ele diz que a
luz espiritual “tem seu foco em toda parte: tal a razão por que não há
obstáculo para a visão espiritual, que não é embaraçada nem pela distância, nem
pela opacidade da matéria, não existindo para ela a obscuridade. O mundo
espiritual é, pois, iluminado pela luz espiritual, que tem seus efeitos
próprios, como o mundo material é iluminado pela luz solar.
Ou ainda:
“Assim,
envolta no seu perispírito, a alma tem consigo o seu princípio luminoso.
Penetrando a matéria por virtude da sua essência etérea, não há, para a sua
visão, corpos opacos.”
Uma outra história narrada na Revista
Espírita de maio/1859, sob o título Cenas da vida particular espírita, um Espírito leviano trava um diálogo com um médium
que, em determinado momento da conversa, assim lhe pergunta:
─ Esta é boa! Porventura temos
necessidade de tocar a campainha?
13. ─ Então podes ir a toda parte e
entrar em qualquer lugar?
─ Mas é claro que sim, e sem
fazer-me anunciar! Não é à toa que somos Espíritos”.
A leitura
dessa história é muito indicada para a instrução de todo estudioso espírita,
pois tem aí a oportunidade de também apreciar a modificação do estado moral do
Espírito mediante a conversa fraterna e conselhos que recebe.
Passemos agora para quarto e
último questionamento:
4.
Todos os Espíritos possuem o mesmo
alcance de visão?
Depois de todas essas preciosas
informações sobre a visão dos Espíritos dadas por Kardec e pelos Espíritos da
Codificação espírita, ainda mais uma se formula, mediante o conhecimento de que
existem Espíritos de inúmeros graus de aperfeiçoamento. Então, naturalmente,
uma questão a mais se delineia: A visão dos Espíritos é igual para todos, ou o
alcance da visão pode variar com o nível evolutivo do Espírito?
Em O céu e o inferno - Capítulo III - O
céu -
encontramos o seguinte texto:
Os Espíritos
são criados simples e ignorantes, mas com a aptidão de adquirir tudo e de
progredir, em virtude de seu livre-arbítrio. Pelo progresso, eles adquirem
novos conhecimentos, novas faculdades, novas percepções, e, por
conseguinte, novos prazeres desconhecidos dos Espíritos inferiores; eles
veem, ouvem, sentem e compreendem o que os espíritos atrasados não podem ver,
nem ouvir, nem sentir, nem compreender.
E em OLE,
no capítulo VI - Ensaio teórico da sensação dos Espíritos, temos:
É, contudo, mais extensa, mais penetrante nas mais
purificadas. A alma, ou o Espírito, tem, pois,
em si mesma, a faculdade de todas as percepções. Estas, na vida corpórea, se
obliteram pela grosseria dos órgãos do corpo; na vida extracorpórea, se vão
desanuviando, à proporção que o envoltório semimaterial se eteriza.”
Essa explicação é muito lógica e fácil de compreender, pois à proporção
que o Espírito evolui, sua visão, que se faz através do perispírito, vai se
ampliando ao atravessar os fluidos perispirituais cada vez mais etéreos. É como
ver, inicialmente, através de um vidro embaçado e que, gradualmente, vai
ficando transparente até não se perceber mais que existe.
Em A gênese - Capítulo XIV, ainda temos uma excelente explicação:
“Assim,
envolta no seu perispírito, a alma tem consigo o seu princípio luminoso.
Penetrando a matéria por virtude da sua essência etérea, não há, para a sua
visão, corpos opacos. Entretanto, a vista espiritual não é idêntica, quer em
extensão, quer em penetração, para todos os Espíritos. Somente os Espíritos
puros a possuem em todo o seu poder. Nos inferiores ela se acha enfraquecida
pela relativa grosseria do perispírito, que se lhe interpõe qual nevoeiro.”
Por isso que, “embora estando um ao lado do outro, um (Espírito) pode estar nas trevas, ao
passo que tudo é resplandecente à volta do outro, absolutamente como para um
cego e alguém que vê, que se dão as mãos: um percebe a luz, a qual não faz
nenhuma impressão no seu vizinho. - O céu
e o inferno - Capítulo III - O céu.
Segue abaixo o relato de dois Espíritos ante à felicidade de poderem ver, sentir e fazer coisas inéditas no mundo espiritual ao saírem melhores, mais evoluídos, de uma encarnação.
“Para a alma que aspira à liberdade, como é longo o tempo na
Terra, e como se faz esperar o momento tão sonhado! Mas, também, uma vez
rompido o laço, com que rapidez o Espírito corre e voa para o reino celeste,
que em vida via em sonhos e ao qual aspirava sem cessar! O belo, o infinito, o
impalpável, todos os mais puros sentimentos, eis o apanágio dos que desprezam
os tesouros humanos, querendo avançar no caminho reto do bem, da caridade e do
dever. Tenho minha recompensa e sou muito feliz, porque agora não mais espero
visitas daqueles que me são caros; agora não há mais limites para a minha
visão, e esse sofrimento, esse longo emagrecimento do corpo terminou; sou
alegre, contente, cheia de vivacidade. Não espero mais visitantes, eu vou
visitá-los.
ERNESTINE DOZON. – Revista Espírita de outubro/1867 – Os Adeuses
E no diálogo de Allan Kardec com a Sra. Duret, na RE de junho de 1860:
47. ─ O mundo dos Espíritos vos pareceu uma coisa estranha e
nova?
─ Oh! Sim.
48. ─ Esta resposta nos admira, porque não é a primeira vez
que vos achais no mundo dos Espíritos.
─ Isto nada tem de que se deva admirar. Eu não era tão
adiantada quanto hoje. E depois, a diferença é tão grande entre o mundo
corporal e o dos Espíritos, que surpreende sempre.
49. ─ Vossa explicação poderia ser mais
clara. Isto não seria porque cada vez que se retorna ao mundo dos Espíritos,
os progressos realizados dão novas percepções e permitem encará-lo sob outro
aspecto?
─ É bem isto. Eu vos disse que não era tão adiantada quanto
hoje.
Essa lei que rege as percepções dos Espíritos, nos remete também ao estado de felicidade relativa que cada um está submetido, que é inerente às qualidades que adquirem. Quanto mais evoluídos são os Espíritos, mais felizes são, mais percepções possuem, e sua visão vai alcançando cada vez mais as belezas da criação divina, esplendores do mundo espiritual, descortinados aos poucos, à proporção que também cresce a visão e compreensão de Deus.